
A aguardada releitura da novela “Dona Beja” prepara-se para sua estreia na HBO Max, prometendo ir além do entretenimento televisivo. Com um arco de 40 capítulos, a produção se propõe a incomodar e provocar reflexões, revisitando capítulos da história brasileira que, segundo o próprio elenco, continuam extremamente atuais. A trama, ambientada no século XIX, adota um olhar contemporâneo para abordar temas como poder feminino, racismo estrutural, intolerância religiosa, perseguições da Inquisição e dissidências de gênero.
A essência da nova “Dona Beja” é marcada por uma narrativa de desejo, ambição e enfrentamento, elementos que permeiam a trama desde seu início. Ao revisitar o século XIX, a produção busca estabelecer um diálogo direto com o presente, evidenciando como as questões sociais e históricas daquele período ainda ressoam na sociedade atual. O objetivo é não apenas entreter, mas também preencher lacunas e oferecer novas perspectivas sobre eventos e personagens que foram, por vezes, invisibilizados ou distorcidos ao longo do tempo.
A atriz Grazi Massafera, que interpreta a protagonista Dona Beja, descreve o papel como um divisor de águas em sua trajetória profissional. Ela relata ter encontrado na personagem um espaço de interpretação mais profundo, afirmando: “Eu fui mais a fundo como atriz, com mais maturidade. É um lugar de interpretação que me provoca”. Grazi compara a experiência com seu papel em “Verdades Secretas”, onde também buscou provocar reflexões sociais, mas destaca que Dona Beja a reconecta com a força e coragem femininas. O ator André Luiz Miranda, parceiro de cena, reforça a dedicação da atriz, elogiando seu desempenho e a complexidade da personagem.
Um dos pilares da releitura é o protagonismo negro em um período histórico onde essas narrativas foram frequentemente apagadas. André Luiz Miranda comenta o impacto visual da produção: “Ver dois corpos pretos em lugar de protagonismo e ascensão social no período colonial choca a sociedade. Não porque seja mentira, mas porque isso não foi ensinado na escola”. A atriz Grazi Massafera complementa, afirmando que o estranhamento do público revela uma falta de informação histórica, já que negros libertos e em ascensão social existiam naquela época. A novela também aborda a brutalidade da Santa Inquisição e a perseguição a indivíduos considerados “fora da norma”. Uma cena inicial, que mostra um personagem amarrado a uma fogueira, gerou um choque duplo para um dos atores, que relatou: “primeiro ver isso na ficção, depois descobrir que isso realmente aconteceu com pessoas como eu”. Ele acrescentou que “muitas mulheres foram queimadas, muitas pessoas dissidentes de gênero foram perseguidas”.
Inspirada na figura histórica de Manicongo, considerada a primeira travesti registrada no Brasil, a trama explora a violência contra identidades dissidentes e a imposição da passabilidade de gênero como estratégia de sobrevivência. Grazi Massafera reflete que, de certa forma, “essa fogueira ainda existe hoje”. Para o elenco, um dos aspectos mais impactantes de “Dona Beja” é a percepção de que os conflitos do século XIX permanecem relevantes em 2026. O ator David Júnior, que interpreta Antônio Sampaio, observa que “muita gente ainda morre na fogueira, simbólica ou real, só por ser mulher, por ser negra, por ser quem é”, concluindo que “essa novela questiona o presente a partir do passado”. Grazi Massafera estende a discussão para o ambiente familiar, expressando o desejo de que a obra inspire sua filha a buscar força e autonomia, e ressaltando a necessidade de mudanças na educação para combater comportamentos machistas. A produção se posiciona, assim, como um projeto político, social e cultural que resgata histórias silenciadas e convida o público a uma revisão de certezas. Como resume Pedro Fasanaro, que vive Severina: “A gente só quer existir”.

